Sunday, January 25, 2009

O Amor é um Buffet.

Triste é ver que agora o amor é uma espécie de buffet, olhamos à volta, tiramos o que queremos e deixamos abandonado, numa qualquer prateleira, o que não nos interessa.Como há muito produto para este novo tipo de clientela, a escolha é fácil e rápida. Não há tempo a perder! Como em tudo. O amanhã chega rápido demais e aí já estaremos preocupados com uma nova selecção...


Bem, só vejo uma vantagem, aqui dificilmente se formam filas.


Nota: este post é repetido, visto já ter escrito isto há cerca de dois anos, contudo nunca é demais repetir. Esta "nova geração" consome-me... literalmente!

Friday, January 23, 2009

Nas nossas Mãos.

Cegamente invado o meu lugar escondido, em bicos de pés, percorrendo com as minhas mãos calejadas as paredes frias, apalpando terreno sentindo o trago do inócuo medo passear-me pela saliva da minha boca. Acho que estou em casa, serão estas as paredes da minha morada? Tenho luzes que não se acendem e corredores que não chegam a lado algum e contudo, não me faz a mínima diferença. Tacteando e ensaiando os meus passos em danças vagarosas procuro certificar-me que a cada centímetro que alcanço, encontro cada singular palmo de terra que colmatou proveitosamente e abriu em chagas profundas a minha alma desarmada e incauta, chagas que engolem avidamente os resquícios de uma antiga passagem. Cercou-me a esta irreversibilidade caótica de que me sei capaz de palmilhar novos ou os mesmos trajectos de sempre, mas que por motivos de sanidade mental os prefiro esquecidos. Orgulho-me desse facto, mas não é o suficiente. Estico o braço no denso estio do ar rarefeito e sinto o tacto florear-se ao toque de pele de uma textura diferente da minha. As minhas pálpebras reagem e as pupilas dilatam, como se fossem capazes de voltar a ver naquele instante, os meus olhos.

Tenho a tua mão na minha mão e a mão do teu olhar que insiste em se afastar do vertiginoso toque da minha epiderme. Somos arrebatados pela violência discreta e sincera de quem não sabe o que fazer com tanto dentro das mãos! As respirações traçam-se. Estou cega, não estou muda e no entanto sinto a minha língua atada, cheia de nós incapazes de se amputar, pelo que deixo de conseguir falar, pelo que deixamos de falar. E porque sempre optas por seguir o que faço, ambos somos engolidos no mesmo vácuo do silêncio. De não saber o que dizer a tanto que se tem de dizer perdemo-nos ali mesmo, no mesmo lugar, no mesmo chão, lado a lado e ainda assim tão longe! A tua mão não me guiou a eixo algum e eu quis parar. Aninhei-me no chão e senti que fizeste o mesmo. As nossas mãos, numa só, aparando as arestas das distâncias intransponíveis e delineadas por nós próprios num simples lance mestre de inexperiência. Nas nossas mãos… a nudez.

A nudez de tantos corpos sem fim. Já não eram somente os nossos, eram vários e de discrepantes formas e feitios. De não saber o que fazer a tanto corpo espalhado sobre todas as divisões desta casa, sobre os corredores, sobre os tectos e sobre o chão paramos! Sem início e fim. Partes em partes, sem parte alguma. Sem corpo que se pareça com o nosso. Juntos ou separados. Parece que ao calar engolimos um fantasma que sabe todas as moradas dentro de nós e acabamos assim por nos perder um do outro. Os seus dedos brancos e longos escutam as nossas falhadas promessas que já não dizemos. Um ao outro. A ninguém. Não há, deixou de haver. Alguém. Tanto silêncio para tanto corpo junto… Apesar de sentirmos o luar banhar-nos pela mesma janela, não sabemos o fim ao resto e perdemo-nos no início.

Sunday, January 18, 2009

SEXUAL RELEASE:

É o paraíso na Terra. Milhões de dedos esmagam-te a cara e afagam-te o cabelo. Não há tempo para a hesitação. Não há razão para a moral. A pele crepita, sentes a febre a chegar, arranhas a pele até rasgar mas isso não faz parar a tua demência. O arrepio não se trava só por morderes os lábios e te concentrares em coisas más, ele continua, continua ao ponto de deixares de sentir qualquer toque. És desejado, e esse desejo do desejo passa a viver em ti. Cuidado… Consegues sentir? Não sentes por causa do suor, não sentes por causa do latejar do teu batimento cardíaco. Consegues ver? Tu não vês, taparam-te os olhos, não foi? Consegues ouvir, pelo menos? Não! Não ouças, não ouças as respirações, não te atormentes, ouve o piiiiiii… que fica a zumbir na tua cabeça e ri-te estridentemente dele.

Tuesday, January 13, 2009

"O coração, se pudesse pensar, pararia."

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.


in Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterónimo de Pessoa).

Thursday, January 8, 2009

Débito em conta mental.

Usando um quanto basta de egoísmo, um jogo elaborado de sombras nas memórias, uma falta total de amor-próprio e temos uma bela receita de autodestruição, subtraindo todo o envolvimento pessoal, aumentando o isolamento, tornando a tristeza num ópio, tão viciante como apaziguador. Foi essa equação que descobri para criar uma fórmula que me permitisse ficar bem esquecendo-me de que isso traria ainda mais dissabores, pois estava assim a privar-me de viver naturalmente. De que me interessa ter coração se não o sei usar? Mas explico isto como se de alguma forma a noite passada que por mim trespassou deixou pintada em mim a escuridão dela. Mais uma vez eu preferi dar um pontapé à minha sorte, tudo às custas do meu orgulho intragável. Podem colocar o meu débito numa qualquer conta… pode ser na mental, vá… porque quando a mente colapsa o corpo vai atrás. Houve um momento claro em que não me conheci através das minhas letras e elas ainda assim continuavam a rebentar pela ponta dos meus dedos. Não era demasiadamente óbvio pois eu não pensei, nem pensei em pensar sequer no óbvio da reflexão, mas uma perspectiva para ver se encontrava em mim algo que me desse força e entendimento, já que de ti tinha tão poucas porções disso. A verdade é que eu passei por um mau bocado anteriormente, quando tentei de deixar de ser eu, só conseguia ver apenas o monstro que precisava de apoio, e não era capaz de me pôr bem sozinha, como sempre o soube. O cansaço deixou-me cega e não via mais nada senão a minha própria monstruosidade e recalcamento. Eu tinha o meu propósito, a altura é que não foi a indicada, como nunca é. Aprendi da pior maneira, sozinha, e estou destinada à infelicidade talvez por vontade própria. Pouco se compara a aquela aparente força de ontem, algo incapaz de ser expresso fisicamente sem ser num acto altruísta, fugindo do meu bem-estar e encostando a ideia do bem-estar do outro com quem estou. Mentalmente apoio-me tendo apenas a memória do que foi ser outro alguém sem ser eu para que pudesse deixar de sofrer. Calma… como posso eu ter calma? Tudo acontece num momento tão rápido, e depois evolui para um processo tão lento e doloroso que eu tão fundamentalmente conheço. Mantém contemplar-se a morte física num momento próprio para isso mesmo, culpa… mas eu não tenho culpa de me terem deixado a casa em ruínas que sou, eu sou e estou escurecida e os olhos que me diriges vão acabar por te mostrar com nitidez que, aqui, só restam estilhaços da parede-mestra do palácio que te prometi com a minha aparente calma, segurança e força. Mas eu não sou a simulada ostentação de felicidade que projecto, eu sou a verdade desta encenação, criada para te fazer crer que coabito como gente quando no fundo sou insaciável nas exigências de distinto e exclusivo de alguém que consiga querer. Eu sei, eu sei que não atingi a imortalidade do sucesso, mas antes a mortalidade do fracasso. Escolhi a alma utopista e esqueci tudo o resto que a unifica a um corpo, falta-me transparecer a espontaneidade e afecto, em vez da impulsividade cega e dilacerante. Falta-me a calma e o sossego para deixar crescer a surpresa. Acabo sempre por tropeçar na mesma pedra, tudo se resume a um ciclo, é inevitável ceifá-lo. E por muita vontade de lutar, por muita experiência que se tenha, nunca se habitua à dor. Penso que seria mais fácil não as ter, pois quando a dor volta nunca estamos preparados e caímos sempre na tentação de cair. E se… tudo tivesse corrido de uma outra maneira na qual todos os pilares da minha suposta base mental permanecessem intactos ao invés de derivarem para um apocalipse louco de raiva e auto-defesa. Entrasses tu na minha mente debitada e compreendesses o porquê dos meus pontos de interrogação e estridente temor de seguir passo-a-passo um dia atrás do outro no meio de uma dúvida e indefinição. Eu quero o palpável, não me condenes, não me condenes por apenas desejar viver contigo a meu lado sem ser no mundo da ideia e do incerto. Cansei-me desse mundo durante os últimos anos. Eu sei que também não és o dono da culpa… mas eu obliterei todas as estruturas e preparei todos os meus discursos nos quais em fingia dormir para afinal permanecer acordada a pensar. E foi assim mesmo que a noite passada se decorreu… a pensar nos talvez e nos se… a pensar no improvável. A pensar nas certezas… a pensar em tudo o que um dia morre e mais uma vez a querer esquecer aquilo que perdura e é o cálice de toda a existência.

You really want to know?

Some things are better left unsaid...

Friday, January 2, 2009

Cúmplices, em clandestinidade forçada.

Nalgum centro comercial não muito longe daqui, onde o espírito se eleva com uma boa dose de consumo, as objectivas das câmaras de vigilância viravam-se para a multidão reinante. As crianças a fugirem das mãos dos pais e a cada montra que viam suplicarem em birras tanto enternecedoras como irritantes um novo objecto com o qual pudessem saciar os seus caprichos. Os pais perdidos entre choros e balbúrdia misturavam-se na confusão para evitar de pensar na sua própria confusão entre treinar as suas crias aos hábitos do apertar de cinto e controlo de orçamento familiar mensal e ainda assim mantê-las satisfeitas. Os corredores de qualquer shopping por esta altura tornam-se mais assustadores que os da Casa de Espelhos; por muito que se olhe à volta é difícil decifrar seja o que for! Sem esquecer os pobres dos avós que se vêem também obrigados a participar na “saída em família” com o mesmo destino de quase sempre, à espera de atenção e convívio, mas que no final o que só recebem é o frenesi da demanda do materialismo. Qual rebanho perdido as câmaras filmam e detectam dois indivíduos que parecem fugir à regra, nota-se de longe o que os distingue pelo sorriso que ambos ostentam no rosto e pela própria velocidade do passo em que andam. Àquela distância pareciam bastante parecidos, ambos com o cabelo muito preto e estilo de vestuário casual e descontraído. Serão irmãos? Algo no modo como se comunicam diz que não. Não se trata, como é óbvio, da comunicação oral mas sim da linguagem corporal do casal. Nem é algo que se veja, pois ambos mantinham uma separação entre si e não caminhavam de mãos dadas, tal como possivelmente se preveria. Porém, sente-se na caminhada que conversam usando o gesto e o toque, envoltos em sorrisos de ternura. A objectiva da câmara, cada vez mais curiosa, foca-os atentamente e ousa aproximar-se de tal forma que adivinha as palavras que os seus lábios soltam. Os passos param quando ambos chegam a uma pequena galeria, que agora parece uma excelente forma de complementar um pouco de cultura a sítios tão fúteis quanto estes e que está tão em voga. Uma jovem chega-se lentamente ao casal, provavelmente com a mesma curiosidade que a objectiva da câmara e finge-se interessada na tela que ladeia o Magritte. Fragmentos da conversa chegavam aos seus ouvidos, já tinha conseguido quase tanto quanto a lente que os tinha seguido por uns bons minutos. Falam em voz baixa, quase que em sussurros e com a agitação imperante não se consegue decifrar o seu teor. Dava apenas para observar as suas expressões enquanto se falavam. Definitivamente há ali uma ligação muito mais profunda do que eles pretendem deixar transparecer. A dado momento, vê-se nitidamente o olhar dela quando levanta a cabeça para o olhar nos olhos. Sim, há algo mais, aquele olhar encerra carinho e entendimento. Ela olha-o como se mais ninguém existisse no mundo para alem deles naquele instante. A jovem atenta, calcula que ele retribui esse olhar com a mesma intensidade, pois um sorriso ilumina agora o rosto dela. A estranha aproxima-se mais um pouco e sorri para ambos, enquanto vê o mesmo quadro que eles. O casal responde o sorriso. Sente-se uma evidente tensão entre os dois corpos. Aquele sentir, por algum motivo, não o podem gritar aos quatro ventos, preferem vivê-lo assim, reservados, discretos e em silêncio… A frase que ele solta no ar é ouvida pela sujeita curiosa e cessa com as já poucas dúvidas dela acerca disso.

- Um dia, minha pequenina, vamos poder tirar os panos que nos cobrem. Tal como a eles.

Ao que ela responde:

- Por agora é um sufoco, mas ainda vamos ter saudades da clandestinidade, vais ver!

Uma gargalhada cúmplice brota das duas gargalhadas. E a jovem com clara vontade de lhes piscar o olho, como quem partilha um segredo, decide afastar-se discretamente.

Pintura: The Lovers, de Magritte.

Monday, December 29, 2008

There are two colours in my head.

Ok, ok… eu admito. Eu tornei-me na minha maior inimiga.

Hoje, eu não sou eu. Hoje acordei louca, por vezes eu sou de facto louca no corredor da minha inocuidade, enquanto o percorro ponho-me a pensar no que sou, no que faço. Quando olho para esse corredor, dentro de mim, vejo a entrada para duas salas onde numa está uma eu e noutra está uma não-eu. Afinal qual das duas serei eu verdadeiramente? Fantástica questão, eu pergunto-me. Incrível imposição, a de querer entender sempre tudo. Eu pertenço-me, dilacero-mo, logo existo e antes disso conjecturo. Da forma mais negativista, mas não interessa. Hoje acordei agoniada, hoje acordei morta. Evadi-me para onde me apeteceu e fiz-me de mim outra. Eu sobrevoei, eu ri, eu aterrei. Mas como? Olhei à minha volta por uns últimos minutos e apercebi-me de que estava tudo igual aquando fechara os olhos, nada tivera sido distorcido da realidade. Será que era eu? Ou eu aqui? Será que já não consigo mais morar em mim ou comigo aqui? Concluo que sim, que sou sempre eu que distorço a realidade por vontade própria. Mas qual realidade? Será que em qualquer outro lugar tudo aconteceria normalmente ou sou eu que já não sei acontecer? Será que esgotei? Ou saturei? Será que me enjoei, cansei e já não me consigo suportar mais? Como acabo sempre por sentir pelos outros… Será o quê? Será que só aqui eu não me encontro? Não me encontro. Um fantasma a rondar a minha casa? Ou uma outra alma que se encostou à minha? Não entendo. Não sei o que faz falta. Ás vezes sei, mas teimo em manter a ideia que as coisas têm de ser assim porque se foram assim um dia então não têm que ser de uma outra forma. Mas sinto a falta de um ânimo que me fugiu. Sinto a falta da intensidade que sempre morou em mim. Sinto falta deles, delas, dele, dela, das euforias e gargalhadas, da liberdade e despreocupação. Sinto a falta de um movimento que parece que desacelerou na minha vida, mas que curiosamente sinto que sucedeu porque eu decidira abandona-lo. Parece que preferi não vê-lo mais, como se estivesse sempre ao meu lado mas a minha miopia propositada fosse demasiadamente elevada para me permitir discernir tal. E depois de todas estas conclusões sinto revolta, porque olho e não vejo. Na verdade, eu preciso de uma revolução, não sei se aguento ate lá, ate porque quando esse lá chegar pode nada mudar. Sinto-me presa. Presa a protótipos, a necessidades, sensações, pressentimentos e recordações. Dia após dia, a uma existência que não me pertence mais e eu insisto em vivê-la, totalmente presa. E pela primeira vez na vida reconheço a carência mais que urgente de dar um salto já, para um abismo ou superfície, mas mais que tudo para um abismo desconhecido. As varandas desta casa chamam-me a atirar-me qual esfera submergível, porém não me persuadem pois já conheço o seu chão. Eu quero apagar-me. Já que não sou soldado, nem sei combater com coragem após ver sangue derramado, prefiro ser artista e reinventar-me de novo. Começar o ciclo todo de uma vez, para que ele me embriague com o sabor da novidade e não me traga o acre da dor e da saudade, o fútil da comparação e o fastio da repetição. Sinto a falta de um nada e de um tudo. Sinto a falta de algo que se calhar nunca tive, nunca aconteceu, ou que se calhar já está a acontecer. Provavelmente sinto a falta de arriscar, de simplesmente viver e não me preocupar com toda esta treta. A vida é um círculo fechado. Acabamos sempre por voltar aos mesmos sítios. E quando não voltamos, os sítios regressam a nós em forma de dejá vu. As pessoas que conhecemos entregam-nos a lembrança das que outrora conhecêramos. Ás vezes basta um toque, um cheiro ou uma palavra. Ás vezes, deixam-nos um sorriso, uma lágrima, ou simplesmente a saudade. Mas cabe-nos a nós alterar os círculos viciosos e reinventar o viver!

Eu já não estou ali. Eu estou aqui. E o momento já passou, deixei o meu demente corredor branco. Ficou o tempo que estava ainda para chegar. Eu já não estou ali e isto está realmente a acontecer. Eu queria ser outra que não eu, ou de outra forma estouraria, mas afinal desta vez vou tentar arriscar, vou tentar viver, comigo e com a outra de mim. Aprender a gostar-me mais, para conseguir gostar de alguém de verdade. Não vou deixar cansar-me de ninguém, nem mesmo de mim própria. Tu queres-me? Então, procura-me. Vem encontrar-me. Eu tenho estado à tua espera. E nada… Nada. Nada. Vem, meu amor… Eu estou pronta. Eu agora já estou pronta.

Tudo no seu sítio certo. Cada dia como se fosse o último.

:)

Sunday, July 13, 2008

Amo-te, como um passarinho morto.

A memória é tão curta. A carne é tão fraca. A oferta é tanta. O hábito é tão cruel! Não sei como tive coragem de o fazer. Só sei que não voltarei a tê-la, nem quero. Sofrer por sofrer, prefiro sofrer com o sofrimento, sem esse acréscimo insuportável de dor sem rosto, de ausência e solidão corajosa mas masoquista. Pelo menos, o sofrimento tem um nome. Agora esta descrença, esta falta de esperança, só me enterra cada vez mais fundo na lama da melancolia. É como soltar um saco de papel ao ar e vê-lo aguentar-se durante horas, a desgastar-se, descobrir que voou enquanto pôde mas sem motivo, sem nenhuma razão para além daquela expectativa de observar até onde ele resistia chegar, sem qualquer destino ou galardão no final. Para que nos vamos desfazer afinal, se o voo só dura até onde as nossas forças suportarem? De que valem os rasgões, os golpes, a auto destruição? Se é para isto, prefiro não voar. Deixem-me rente ao chão. Para sempre.Peço desculpa a quem me visita, mas este silêncio vai calar-se por uns tempos. A minha sanidade mental e estabilidade emotiva estão algo dependentes disto, de um esquecimento total, de um luto por completo.

Prometo regressar… um dia.

Experiência.

Não é nada sério. Mentalizo-me eu, ininterruptamente, com o meu martelo consistente e obsessivo de consciencialização a martelar esta frase no meu bom-senso. Podes deixar-me por minha conta, pois não tem nada que ver contigo. Minto. Tem tudo que ver contigo. Quase consigo provar a dor que senti na altura, como se de sangue se tratasse a passear-me a boca depois de a ter mordido, assim que vi perante os meus próprios olhos a comprovação do que me haviam falado poucas horas antes. Eu não quis acreditar. Eu não podia acreditar. Não podia aceitar aquela verdade que desde que te conheci viveu sempre em mim em forma de dúvida, mas realmente não existe nada que possas fazer para além do que tens feito. Agora quem precisa de tempo sou eu, de muito tempo para digerir.
Realidade. A mais crua de todas. Na realidade, eu nunca soube digeri-lo e é como se estes quatro anos não tivessem bastado. Eu penso que nunca se tratou de gerir, porque não havia nada de concreto para gerir, mas antes de sentir e acreditar. E se for sincera, sim, custa saber. Custa tanto saber que sei que isto nunca me vai largar, passe o tempo que passar, viva o que viver, eu não vou conseguir esquecer. Custa ver, ver aquilo que sempre preferi esconder da minha vista. Custa aperceber, perceber o que no fundo sempre suspeitara e diziam todos os que te conheciam ser verdade em tom de brincadeira e gozo. O “esperar para ver” também custa, e de um momento para o outro, não esperei, tentei libertar e veio tudo à superfície. Ouvi, senti, sofri. Novamente e uma vez mais, uma nova forma de dor, agora um diferente motivo, mas da mesma e da única pessoa de sempre. Fui apanhada de surpresa, apesar de no fundo já o saber, as palavras atingiram-me de igual brutalidade que me rasgaram o chão e me deixaram desamparada no meu próprio profetismo.
E eu… Eu já nem sei como me sentir, muito honestamente. Não sei se desta vez tenho razões para me sentir a principal culpada, ou se aquela realidade já fazia parte de ti e tu apenas a querias assumir de vez. Eu já não sei…
Terei sido mesmo uma experiência? Afinal sempre tinha sérias razoes para me sentir uma cobaia de laboratório… Mais uma hipotética verdade à qual prefiro não acreditar. Prefiro saber-te morto. É frio e desumano pensá-lo mas acredita que não é de todo preconceito meu, não sofro desses males. É antes o querer que permaneças em mim como aquele por quem me apaixonei e me correspondeu emocionalmente na mesma medida desde muito cedo. Dizem que há coisas que já estão predeterminadas a acontecer nas nossas vidas, mas eu pergunto-me, será que merecia? Ao fim deste tempo todo, da espera, da mágoa em silêncio, da lealdade, será que merecia ainda mais este castigo? Devia ter feito como sempre me disseram: “esquece-o, ele já não existe”.
Estupidez? Sim, admito. Inacção? Sim, admito-o. Possibilidades? Não creio que as haja, porém depende e sempre dependeu apenas de mim. Pelo menos, continuo a acreditar em mim, nem que tudo não tenha passado de uma pura e simples fantasia minha. Na força das minhas torturas e mazelas transpostas ate para outros patamares continuo a olhar para trás e a encarar toda a possibilidade que me fugiu por entre os dedos, mesmo que aquela tivesse sido a minha maior queda de sempre. Aquela, não que eu não soube como agarrar, mas que no fundo foi a que sempre larguei. Como se quisesse, como aquela que se quando pretendesse me bastasse apenas estalar os dedos e ela se recuperasse. Como se nunca tivesse existido tempo a separar-nos. Será que eu o teria evitado? Será que estaríamos felizes ainda? Não sei… Nem quero saber. Para mim, o luto continua…

L uz & S ombra.

Está escuro…

Há uma luz que se acende.

Tu és a luz desse lugar. A única luz que alumia uma vasta escuridão. Uma sombra comprime-se e esvai-se na penumbra. Eu sou a sombra que tu fazes e agora se retira. Eu sou a sombra que se perde por ali enquanto tenta alcançar a tua claridade. Tu és a esperança que se reduz numa linha ténue de penumbra que indecisa, não é luz nem é escuridão.

O último a sair apaga a luz, meu amor...


Um segundo.

Paro o relógio de pulso. No último segundo tudo á minha volta pára. Um só segundo e eu entro em histeria compulsiva, um só pulsar e a minha mente passa para um outro nível, um nível de caos, onde a forma não respeita a cor e a destrói. Eu já nem sei se era cor, se era negro, ou se tudo passou a ser branco. Se aquilo era escuridão ou uma luz tão intensa que se tornava cegante. Com toda a certeza sentia-me contudo era uma estranha, o silêncio reinante embebia-me num estado de dormência. A mudez das vozes e a paragem automática de todos os corpos que na altura deambulavam naturalmente nas ruas apurava-me os sentidos. Olhei à volta, a cidade já não parecia a mesma, tudo desaparecera; as casas, os carros, as ruas. Mantiveram-se unicamente as pessoas, numa órbita tridimensional que desconhecia. Os rostos destacavam-se nessa dimensão incolor e infindável… nenhum deles reconheci até que vi o teu no meio das demais. A única cor que consegui definir naquele espaço foi a que trazias vestida. Eras tu no escuro, eras tu na luz. Parecia que nunca conseguia estar no mesmo sitio que tu, excepto quando enfim tentei dominar o tempo. Dominei o tempo, aquele demónio que sempre nos perseguia e dividia. Aproximei-me de ti, afinal sempre era capaz de me mover ao contrário de todos os outros. Fiquei a uns poucos centímetros de ti e tu olhavas-me estático, numa perplexidade mórbida que não mostrava sequer um mínimo sintoma de movimento. Toquei-te na face e senti calor. Beijei-te os lábios com saudade e senti a tua respiração. Existíamos ainda os dois no meio daquele cenário de vida morta. Existíamos e estávamos ali juntos! Era aquele o sítio, o sítio onde o corpo mata a alma. E tu nem assim me falavas. Nem por saber que estava próximo o caminho para o fim. “Amor, o silêncio não é o caminho certo… falemos que o céu está a chegar…”. Aqui, o corpo mata a alma, é aqui onde a alma morre para o politicamente correcto. A alma torna-se submissa e descrente, solta-se do corpo e fica a pairar no ar sem perspectiva de cair. Sinto uma calma a advir, uma calma ainda mais plácida que aquela que conseguia ver na estagnação e quietude de todo um segundo. “Ficas perfeito assim… tão tranquilo, sozinho e fiel. És encantador quando me és fiel… Sublime como um anjo.” Quando paraste ficaste com um ar de sorriso na face, um olhar terno e tão apetecível de uma doce inocência que desamarravas do teu corpo lentamente. Tu podias agarrar a minha alma com uma só palavra tua, só tu e só naquele instante, conseguias acorrentar-me a alma desobediente ao meu corpo para que pudesse eu voltar a acordar o relógio. Eu comprometia-me a consertar o tempo, fazê-lo desta vez jogar a nosso favor. “Dá-me uma palavra. Uma só palavra. Pode ser o teu perdão, porque eu acho que esse é o verdadeiro motivo da desertificação do meu ser.” Não me queria resignar e vaguear à deriva de um sentimento de culpa até ao resto dos meus dias. E é absolutamente surreal ter a noção de como tudo acontece num momento tão rápido, de como tudo ao mesmo tempo evolui para um processo tão lento e doloroso na própria rapidez e sagacidade do momento que até aí consegue ser demasiado fugaz! Eu acredito que é aí, aí mesmo que mostramos realmente quem somos, nessa fracção de tempo, nessa partícula do ápice, do instante que deixa saudades. Somos rebaixados em praça pública e pouco importa se os olhos que nos observam estão vidrados, que os corpos estejam paralíticos e que as mentes se encontrem paradas em colapso intelectual passageiro, o que importa é a vergonha que não deixa de se sentir, a vontade de se ouvir um perdão e acreditar que somos perdoados. A vontade de remediar e reconstruir o quebrado. É essa vergonha e pedido de compaixão, que vem da vontade que nos leva a contemplar a nossa própria morte física no cenário e momento que melhor idealizamos para ela. Culpa… redenção… arrependimento e expectativa. Voltar a acreditar na esperança e lutar por ela. Ser o melhor que conseguimos ser e pensar que tudo isso tem um objectivo ou um propósito. A verdade é que não tem, e foi precisamente por isso que não chegaste a falar. “Não vale a pena falares, já não quero ouvir mais nada. A nossa mente mente e eu não quero ouvir a tua.” A mente nem sempre fala o verdadeiro e o coração sente que a mentira é a verdade simplesmente porque assim o quer…

E assim morrem os amantes inocentes, cujos corações preferem nem ouvir.

Regresso a casa.

Espelho meu, espelho meu, existe alguém tão mutável quanto eu?

Houve um momento. Um simples e singelo momento em que eu me olhei ao espelho e não reconheci a cara que ele pintava. Os traços que surgiam à velocidade a que agora escrevo, quase que fulminante, pareciam-me distantes de um rosto tão familiarmente esquecido. Foi um momento óbvio de reflexão, um momento óbvio de introspecção. Uma tentativa falhada de compreender de que matéria afinal era eu feita e porque é que estava em constante mutação degenerativa. E constrangia-me olhar para aquela cara, para aquelas linhas agora tão despersonalizadas de mim. Em dias como o de hoje volto a acreditar que sou o que eu quiser.

“Abri as asas e fui ser tudo o que eu sempre quis.”

Cansei-me de uma espera que já não tinha sentido ou objectivo patente. Hoje volto a ser eu. Talvez uma versão melhorada de mim, mais instruída e menos credivelmente vulnerável.

Partilhamos [des]ilusões diferentes.

Para a constelação mais perto de mim que afinal tão longe está.

Havia alguma coisa mais forte, algo maior, que não nos queria ver juntos, era impossível que tanta coincidência nos afastasse sem haver alguém ou alguma coisa por detrás dessa distância intransponível. Foi só quando o conheci que me apercebi de como o nosso coração pode ser paradoxal. Porque com ele aprendi que não existem quaisquer limites para o coração. Não existem limites para o coração mas, este precisa irremediavelmente de os ter, exige-os sempre para depois os superar, porque é só sentindo mais além do que aquilo que as forças lhe permitem que ganha a verdadeira certeza que sente. E as forças do meu coração para com ele sempre excederam qualquer expectativa…

Tua, Andrómeda.